Acompanhar o desenvolvimento e lançamento de gadgets é tão interessante quanto descobrir que aquele iPad ou iPhone killer não durou nada no mercado. São vários os exemplos de máquinas que foram lançadas como o "next big thing" - e de fato eram excelentes em diversos aspectos - mas que não foram tão bem aceitas e acabaram descontinuadas.

O Microsoft Kino HP TouchPad (esse então não durou nem 3 meses) são alguns que me vem à mente, mas existem outros.

Newton MessagePad

Entretanto, o mais emblemático para mim foi a descontinuação do Newton Messapad da Apple, um aparelho profético, mas com uma proposta inovadora e fora de época. Na verdade, na época da descontinuação do aparelho, as pessoas foram pegas de surpresa pois o Newton vendia razoavelmente bem e era um gadget que impressionava a todos.

Lançado em Agosto de 1993, o Newton Messagepad foi o primeiro computador desenhado com o objetivo principal de nos livrar dos desktops. Na realidade, foi o primeiro PDA - termo cunhado pela própria Apple para definir a nova categoria.

Claro que se comparado com os smartphones de hoje, o Newton era bem limitado, mas em 1993 um aparelho super portátil ser capaz de mandar fax e interpretava os rabiscos na tela como escrita era algo tão absurdo, numa época em que computadores portáteis eram coisas de ficção científica.

 

O Conceito

A ideia do Newton foi concebida por Michael Tchao num avião e apresentada a John Sculley, então CEO da Apple. Steve Capps liderou o desenvolvimento do software e interface do usuário e explicou que:

“The goals were to design a new category of handheld device and to build a platform to support it,” “The restrictions imposed by battery life necessitated a new architecture.”

Quando Tchao apresentou a ideia, Sculley estabeleceu alguns critérios que deveriam ser atendidos: deveria ter uma stylus, um chip de radio como os dos pagers, templates e formulários que poderiam ser editados/desenvolvidos em qualquer plataforma (especialmente Mac ou PC) e, o principal, o Newton ser independente do computador e caber no bolso.

Aliás, o bolso era o elemento central do conceito. Os protótipos deveriam passar no teste de caber no bolso do Sculley. Vejam que a Apple não quis apenas miniaturizar o desktop computer conhecido, a companhia queria inventar uma categoria de gadget completamente nova (a Apple fez isso com o iPad). A ideia era criar computadores que coubessem no bolso e que pudessem ser usados indiscriminadamente mundo afora, diferente do que os computadores da época permitiam. 

Durante o desenvolvimento do Newton, e diferente de hoje em dia, não era muito comum conseguir a produção de peças customizadas (o que acontece hoje em dia com iPhones e iPads). Por isso, todos os componentes do PDA precisaram ser concebidos, desenhados e desenvolvidos internamente, o que se provava ser um trabalho complicado. Além disso, os designers industriais do Newton tentavam conceber uma nova linguagem de design chamada de "the Batman concept", que tinha uma pegada mais escura e elegante (e sofisticada), completamente diferente da linguagem de design "Snow White" concebida pelo studio Frog Design, característico dos produtos da década de 1980.

NeXT

Aliás, a mudança da linguagem de design dos produtos foi uma iniciativa da Apple para redefinir o visual de todos os seus produtos, ainda mais depois que dispensou a Frog Design por descobrir que também trabalhavam para Steve Jobs na NeXT. Combinar o conceito do Batman com peças miniaturizadas se mostrou mais difícil do que imaginado, a tal ponto dos designers sugerirem:

“We joked about sneaking into Sculley’s house and sewing bigger pockets into everything,”

Bom, de toda forma, conseguiram encaixar tudo para criar o primeiro PDA e, em 1992, o mundo conheceu o primeiro computador de bolso.

 

A Morte Precoce

O resultado de todo esse trabalho foi a criação de uma categoria de produto completamente nova que rodava uma sistema operacional inédito num formato drasticamente diferente do que se tinha na época, o que representou numa linguagem de design verdadeiramente nova e ousada. Tudo lindo né? Nem tanto, havia apenas um pequeno problema: o reconhecimento de escrita.

Vou explicar. Durante a apresentação da Consumers Electronic Show de 1992, a Apple prometeu que o Newton reconheceria os nossos garanchos e transformaria tudo em texto, utilizando-se de uma tecnologia revolucionaria de reconhecimento de escrita. A promessa não vingou e a tecnologia matadora do produto foi o grande responsável pela morte prematura do Newton. Irônico, no mínimo.

O reconhecimento era tão tosco que virou motivo de piada, sendo a mais famosa na comic strip Doonesbury de Garry Trudeau que mostra o personagem Michael Doonesbury levando uma surra do Newton.

 

The Pen is Mightier than the Keyboard?

O problema no reconhecimento de escrita do Newton era o assunto da época do lançamento e Trudeau fez uma brincadeira que ganhou proporções gigantescas, mesmo ele revelando que jamais usou o Newton na época que fez a comic strip. Trudeau revelou que o Newton era um alvo fácil - quem iria trocar um Moleskin de $5 que "reconhece qualquer escrita" por um computador de $700 que entende "egg freckles" quando se queria escrever "catching on?" - e por isso fez a comic strip.

Steve Jobs
By Walter Isaacson

É claro que a piada foi devastadora. Foi um duro golpe para a equipe, que colocam suas vidas no Newton. , ainda mais para a equipe que se dedicou ao máximo para desenvolver a tecnologia de reconhecimento de escrita. Mesmo assim, eles voltaram ao trabalho, e, finalmente, conseguiram fazer o reconhecimento de caracteres ficar impecável e fenomenal. Só já que era tarde (Steve Capps chegou a licenciar a tal comic strip e "esconder" como um easter egg no MessagePad 2000).

Fora a piada, Newton tinha um inimigo muito maior do que Garry Trudeau. E esse inimigo era cruel. Steve Jobs odiava o Newton. Na biografia escrita por Walter Isaacson, Jobs detestava o Newton por conta da performance abaixo do esperado pelos produtos da Apple (e por ser uma inovação de Sculley - responsável pela sua expulsão da Apple). Jobs viria a dizer no lançamento do iPhone:

“God gave us ten styluses,”
“Let’s not invent another.”

Quando Jobs finalmente retornou a Apple, ele aposentou o Newton. Como explicou a Isaacson:

"If Apple had been in a less precarious situation, I would have drilled down myself to figure out how to make it work. I didn’t trust the people running it. My gut was that there was some really good technology, but it was fucked up by mismanagement. By shutting it down, I freed up some good engineers who could work on new mobile devices. And eventually we got it right when we moved on to iPhones and the iPad."

 

O Legado

Apesar de sua vida relativamente curta, a ideia por trás do Newton ressoa até hoje. Tens uns doentes, digo, os aficionados ainda usam o Newton. Tem até um museu dedicado ao aparelho. Se pensar bem, o conceito do Newton está presente nos dispositivos que usamos hoje em dia.

Na prática, a única e tênue conexão que conecta os dispositivos modernos com o Newton (e que de fato impulsiona toda a indústria móvel) é o processador ARM. Quando a Apple desenvolveu o Newton era preciso maximizar a vida útil da bateria e a arquitetura ARM era a solução. Pode-se até dizer que se não fosse pelo Newton, não teríamos o desenvolvimento do processador ARM (a Apple era acionista majoritária na ARM Holdings) e hoje você não estaria lendo esse artigo no seu iPhone 5 ou Galaxy S4.

Na minha visão, o maior impacto do Newton foi o pensamento de levar o computador para fora de casa ou escritório. Hoje, o Newton está com a gente o tempo todo, na forma dos smartphones, que combinam o PDA, uma câmara fotográfica, um tocador de MP3, o telefone celular e, claro, os assistentes inteligentes Siri e Google Now capazes de reconhecer a linguagem natural e agir de acordo com a nossa intenção. Newton foi pioneiro em tudo isso e um dos seus pontos fortes na época do seu lançamento era a capacidade de transformar uma frase como "Eu tenho uma reunião com Fulano amanhã ao meio-dia ", e traduzir isso em um evento no calendário do dispostivo.

O projeto de Newton acabou sendo um fracasso, sem dúvidas. Mas o seu legado dura 20 anos e faz parte do nosso dia-a-dia.

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